A origem de nosso azul
A ata nº 3 do Grêmio, datada de 30 de setembro de 1903, trata das cores do uniforme a ser utilizado, nos exatos termos abaixo:
Para fardamento foi escolhido o seguinte: Bonet preto – Camisa listada de azul e cor havana com collarinho deitado – Gravata branca regata – Faixa branca tendo na frente 15 cent. e atraz 10 cent. de largura – calção preto – meias compridas pretas e botinas claras.
Muito se fala e se teoriza sobre a origem de nossas cores. Sobre o havana, a teoria mais aceita é que Cândido Dias, um dos fundadores do clube, também famoso por ser o “dono da bola” com o qual o Grêmio não apenas jogou seus primeiros jogos, mas também a qual, primordialmente descende seu escudo, desejava que as cores do novo clube coincidissem com as cores da bandeira de seu estado natal, São Paulo. Um dos sócios sugeriu a mudança do vermelho pela cor havana, fosse por questão de gosto, fosse em virtude do havana ser uma cor próxima ao couro da bola. É celebre a frase “o Grêmio nasceu da bola”.
A substituição do havana pelo preto se deu em virtude da dificuldade de se encontrar tecido nessa cor no comércio local. Já o branco parece ter sido escolha mais pela praticidade de se fabricarem faixas e gravatas nessa cor. Mas, e o azul?
O fato é que, nessa mesma ata nº 3, são aceitos no clube 8 novos sócios, todos de sobrenome alemão. Some-se a isso as 31 assinaturas na ata nº 1, a maioria delas igualmente de sobrenomes germânicos. Essa conhecida influência de imigrantes alemães sobre o clube nascente, muito provavelmente, também deve ter trazido elementos futebolísticos alemães ao Grêmio, dada a prática bem mais antiga do esporte na Alemanha.
Se os fundadores do Grêmio, em sua maioria descendentes de alemães, escolheram espontaneamente o azul baseados em elementos do futebol de sua terra de origem, cabe se levantar que, dos clubes alemães, em 1903, o mais destacado que utilizava a cor azul era o Sport-Club Germania Hamburg. Aliás, esse clube não utilizava apenas o azul, mas também carregava o preto e o branco.
A mudança para o Brasil de um ex-jogador do SC Germania em 1897, Hans Nobiling, e seu entusiasmo pelo futebol, incluindo a fundação de clubes na cidade de São Paulo, podem ter fortalecido ainda mais a lembrança e influência do Germania e suas cores. O clube vinha despontando no cenário do futebol alemão, conquistando títulos e bons resultados nos primeiros anos do séc. XX. Curiosamente, no mesmo ano de fundação do Grêmio, 1903, o clube alemão transformava um local de corrida de carroças no primeiro local fechado para a prática de futebol da cidade, uma grande inovação para a época. Talvez essas notícias tenham colocado o SC Germania em maior evidência, e deixado o nome e as cores do clube alemão mais presentes e representativas no que toca ao futebol.
A 1ª. Guerra e suas consequências sobre a Alemanha forçaram o SC Germania a se fundir com os clubes Hamburger FC e o FC Falke 06. Assim, em 1919, nascia o Hamburger Sport-Verein, herdando as cores vermelha e branca dos clubes fundidos, mas o preto, e principalmente o azul, do extinto SC Germania em seu escudo. O próprio Hamburgo SV reconhece que sua cor azul tem origens no SC Germania, e que seu escudo, em cor e formato, guarda similaridade com uma bandeira naval chamada de ‘Blue Peter”, a qual tem como significado operacional, quando ancorado em um porto, que todos devem imediatamente embarcar, pois o navio está prestes a zarpar. Lembremos que Hamburgo é uma cidade portuária, e que associações náuticas não deviam ser tão estranhas ao dia a dia da cidade que tem o maior porto europeu.
Assim, das origens germânicas de nosso Grêmio, vêm também, de uma cidade portuária, assim como Porto Alegre, a cor que marca nossa identidade e que deixou nosso planeta Terra ainda mais azul em 83.
Sim: quis o destino que fôssemos campeões do mundo ao vencermos o clube que tem em seu DNA o mesmo azul de nossa alma celeste.